Por que algumas pessoas parecem sempre atrair relações emocionalmente difíceis?

Ontem, conversando com uma colega de profissão e percebendo o tamanho da carga que ela escolheu carregar na sua própria vida, me detive a pensar sobre a qualidade e saudabilidade das relações interpessoais e não me contive, estendi e amplifiquei para uma reflexão sobre as relações intrapessoais.

Muitas vezes escutamos alguém dizer: “não sei por que só atraio pessoas complicadas, tristes, negativas, falsas ou emocionalmente pesadas”. Essa frase costuma aparecer depois de muitas decepções, amizades frustradas, relações cansativas ou vínculos em que a pessoa sente que sempre precisa acolher, salvar, compreender ou suportar mais do que recebe. Mas talvez a pergunta mais importante não seja apenas “por que atraio esse tipo de pessoa?”, e sim: “que lugar eu costumo ocupar nas minhas relações?”.

No cotidiano, podemos repetir papéis sem perceber. Algumas pessoas aprendem desde cedo a ser fortes, cuidadoras, conciliadoras ou disponíveis demais. Outras têm dificuldade de dizer não, de perceber invasões, de reconhecer manipulações ou de sair de relações que já se tornaram emocionalmente injustas. Assim, mais do que “atrair” pessoas difíceis, às vezes permanecemos tempo demais onde nossos limites não são respeitados. O problema não está em ter empatia, mas em transformar empatia em abandono de si.

Autores como Freud e Jung nos ajudam a compreender que nem sempre escolhemos de forma tão consciente quanto imaginamos. Muitas vezes repetimos padrões familiares, buscamos reconhecimento em lugares parecidos com aqueles onde fomos feridos, ou tentamos resolver no presente dores antigas. Carl Rogers, por outro lado, lembra que relações saudáveis precisam de autenticidade, escuta e respeito. Onde só uma pessoa compreende, só uma cede e só uma sustenta, não há vínculo maduro; há desequilíbrio.

Por isso, antes de chamar o outro de “problemático”, vale observar o próprio modo de se relacionar. Eu consigo colocar limites? Consigo perceber quando uma relação me esvazia? Tenho coragem de sair do papel de salvadora, conselheira permanente ou porto seguro de todos? Relações saudáveis não exigem perfeição, mas precisam de reciprocidade. Talvez a grande virada seja entender que não precisamos endurecer o coração, mas podemos amadurecer nossos critérios de permanência.

Maria Rita Sales, PhD

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