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Nosso tempo de cada dia…para onde vai?

Há agendas que revelam uma vida rica: encontros, trabalho, estudo, amigos, viagens, projetos, curiosidade. E existem agendas que escondem a vida. De compromisso em compromisso, algumas pessoas atravessam semanas inteiras sem uma única experiência de silêncio suficiente para perceber como realmente estão. Nesse ponto, estar ocupado deixa de ser apenas uma circunstância e pode se transformar em proteção: enquanto há alguma coisa para fazer, não é necessário olhar para aquilo que sentimos, para relações que precisam ser revistas, para escolhas adiadas ou mesmo para a pergunta mais incômoda de todas: ainda gosto da vida que estou levando?

Talvez uma das ilusões do nosso tempo seja associar falta de tempo a importância. Dizemos “minha agenda está uma loucura” quase como quem apresenta uma credencial. Não há nada de errado em ter uma vida movimentada. O problema começa quando confundimos quantidade de atividades com qualidade de existência. Aos poucos, até aquilo que deveria produzir prazer passa a obedecer à lógica da tarefa: encontrar amigos, viajar, estudar, caminhar, ler, descansar. Fazemos muitas coisas, mas experimentamos poucas delas verdadeiramente. O tempo deixa de ser vivido e passa apenas a ser preenchido.

Gerenciar melhor a agenda, portanto, talvez tenha menos relação com aprender técnicas para fazer mais coisas e mais relação com aprender a escolher. Antes de perguntar “como encaixo isso?”, podemos perguntar “isso precisa entrar?”. Antes de procurar outro espaço disponível, podemos investigar aquilo que já ocupa nossos dias. O que está aqui porque escolhi? O que está porque alguém espera de mim? O que permanece apenas por hábito? E o que considero importante, mas curiosamente nunca encontra lugar na agenda? Ter algum domínio sobre o próprio tempo é diferente de possuir horas vazias. É conseguir direcionar tempo, atenção e presença para aquilo que reconhecemos como significativo.

Talvez a agenda seja uma pequena autobiografia escrita antes de a vida acontecer. Olhando para ela, conseguimos perceber a quem entregamos nossos dias. Trabalho, responsabilidades e compromissos fazem parte da adultez, mas não deveriam nos afastar completamente de nós mesmos. Precisamos de espaços em que não sejamos apenas profissionais, pais, filhos, parceiros, cuidadores ou responsáveis por alguma coisa. Porque todos esses papéis são importantes, mas nenhum deles, isoladamente, responde à pergunta sobre quem somos. De vez em quando, em vez de perguntar quantos compromissos ainda cabem na semana, talvez valha perguntar: eu ainda caibo na vida que estou organizando?

Yoon SY (2026) Time affluence and health: a scoping review of conceptual and methodological patterns. Front. Public Health 14:1824268. doi: 10.3389/fpubh.2026.1824268

Maria Rita Sales

Mulher, mãe, esposa, dona de gatos e psicóloga com alma mergulhada em histórias humanas.

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